Eu sou o tipo de pessoa que quando descobre algo legal sai tentando contaminar os amigos e conhecidos com o seu achado. Quando alguém faz o mesmo comigo eu me sinto verdadeiramente feliz. Tenho uma amiga que me deixa constantemente verdadeiramente feliz - me indicando livros, filmes, músicas e tudo de mais lindo - Deise, obrigada!
Recentemente ela me indicou o filme Argentino 'Medianeras' com a seguinte premissa: "A Poesia visual é linda!" Não tardei em conferir!
O Filme começa fazendo carinho aos ouvidos e aos olhos com um texto narrado por Martin - um dos protagonistas - enquanto fotos da cidade de Buenos Aires sentimentalizam ainda mais o que ele diz. O texto inicial traz o ritmo à película. É intenso, é ácido, é verdadeiro, é lindo!
Transcrevi aqui, vejam:
"Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita, é uma cidade superpovoada em um país deserto, uma cidade em que se erguem milhares e milhares e milhares e milhares de edifícios sem nenhum critério. Ao lado de um muito alto, existe um muito baixo, ao lado de um racionalista, um irracional, ao lado de um de estilo francês há outro sem estilo algum. Provavelmente estas irregularidades nos refletem perfeitamente, irregularidades estéticas e éticas.
Estes edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica demonstram uma total falta de planejamento. Exatamente igual à nossa vida, vamos vivendo sem ter a mínima idéia de como queremos ser. Vivemos como se estivéssemos de passagem por Buenos Aires. Somos os inventores da cultura do inquilino. Os edifícios são cada vez menores, para dar lugar a novos edifícios, menores ainda. Os apartamentos se dividem em ambientes, e vão desde os excepcionais 5 ambientes com varanda, sala de jogos, dependência de empregados, depósito, até a quitinete, ou caixa de sapatos.Os edifícios, como quase todas as coisas pensadas pelo homem são feitos para nos diferenciar uns dos outros. Existe uma fachada frontal e posterior, e os pavimentos baixos e os altos. Os privilegiados são identificados com a letra A, excepcionalmente a B, quanto mais progride o alfabeto menos categoria tem o apartamento. As vistas e a luminosidade são promessas que raramente condizem com a realidade. O que se pode esperar de uma cidade que vira as costas para o seu Rio?Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais de cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a abulia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas, a insegurança, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e empresários da construção. Desses males, exceto o suicídio, eu padeço de todos. "
Eu não colocaria Medianeras na sessão de filmes românticos! Durante quase toda a narrativa não vemos romance, vemos solidão, desolação e tentativas frustradas de romances. Medianeras faz questionamentos existenciais, amorosos e sociais e critica num tom deliciosamente debochado - do jeitinho que eu gosto - a vida moderna. O discurso não é nada clichê, nem apela pro emotivo gratuito - embora eu tenha me emocionado e ido às lágrimas.
Além disso, o filme nos faz adquirir uma empatia quase que inevitável com os personagens nos fazendo querer interagir com eles. Tenho certeza que quem assistir também terá vontade de fazer companhia à Mariana ou de gritar pro Martin: Ei, olha pro lado, essa garota é muito legal!
O filme é uma coprodução espanhola e realmente, 'a poesia visual é linda', o texto é belíssimo e a trilha sonora também! Destaque para “True Love Will Find You in The End”, de Daniel Johnston e “Ain’t no Mountain High Enough” de, Marvin Gaye.
Título Original: Medianeras
Duração: 1h 35min
País/Ano: Argentina/Espanha/ Alemanha/2011
Direção: Gustavo Taretto
Roteiro: Gustavo Taretto
Fotografia: Leandro Martínez
Quer um conselho? Assista ao filme!
. Fabi Anselmo


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